Superpoder

Que atire a primeira pedra quem nunca desejou ter superpoderes! Eu me contentaria nem que fosse com unzinho só.

Com o passar do tempo, no entanto, minhas necessidades sobre-humanas foram se modificando.

Já quis ser invisível – e não era porque eu me sentia mal comigo. Não durou muito. Imagina, logo eu, espalhafatosa, chegando sem chegar.

Já desejei voar. Sem asas. Acho que era mais como planar, levitar. Me elevar acima de montanhas, mares, prédios. Mas fora da esfera do imaginário, tenho medo de altura. Não daria certo.

Teve a época da materialização. Provavelmente uma versão mais elaborada do voo, onde eu sonhava em pensar num local e, em segundos, já estar lá. Este deve ter vindo junto com a minha ansiedade, com a falta de paciência e com a pressa.

Já quis prever o futuro. Mas desisti, porque me apavorei com a quantidade de aspectos negativos. Colocando na balança, saber direitinho quando e como vou morrer me parece bem mais aterrorizante do que descobrir se vou me casar de novo ou não.

O último superpoder, que eu me lembre, foi o de querer ler pensamentos. Já imaginou saber o que a pessoa está pensando de verdade? Que delícia seria desmascarar um cínico. Quantas brigas evitadas com filhos e parceiros. Só não foi adiante porque acabaria com a graça da surpresa e da dinâmica da vida. E qualquer um sabe que eu odeio chatice.

Recentemente ando pensando em mais uma habilidade especial. Nem sei se posso classificá-la na mesma categoria dos dons dos super-heróis, mas que seria bem bizarramente útil seria. Tipo isso: eu morreria – ou estaria em um estado apenas catatônico – e, no enterro, poderia ser capaz de ver as pessoas que estivessem lá, ouvir seus comentários, saber de seus sentimentos. E depois voltar à vida!

Deixaria muita gente de cabelo em pé quando eu revivesse para dar um pé na bunda dos hipócritas papa defuntos. Só que quem me ama de fato iria ficar muito magoado – não compensa.

Para ser sincera, fica nítido que superpoderes vêm com “superproblemas” a tiracolo. Não valem o custo benefício, pelo visto!

Devo ser um prato cheio para terapeutas e psiquiatras discutirem suas hipóteses do que se esconde por trás de cada uma dessas motivações fantasiosas. Já me antecipando às críticas, asseguro que elas estão intimamente relacionadas às minhas carências. Elementar meu caro, pois para dizer o óbvio não é preciso ativar nenhuma capacidade sobrenatural – que eu saiba!

Kátia Galvão em 50etcetera

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