Diversão e Arte

Num dos lugares onde eu detesto estar, com quem adoro estar. Eis a definição das consultas à minha dentista.

Tô eu lá, de boca aberta, no maior sufoco, promovendo uma baita canseira, quando vem ela com uma das suas tiradas impagáveis (com as quais, aliás, eu quase sempre concordo).

Ela escuta uma notícia na tv e começa: “Que história é essa que temos uma primeira miss negra? E por acaso miss tem cor? Tem até nacionalidade, aspecto cultural, característica física, mas cor?”

Tem razão. E eu queria poder comentar. O problema é que eu consigo apenas opinar com uns grunhidos, uns engasgos, tentando desesperadamente me conectar através de transmissão de pensamento – entre um xingamento e outro, lógico. Por isso, ela acaba dando a última palavra sobre qualquer tema. Afinal, não me faltam argumentos, só que a espertinha, provavelmente pra me distrair e relaxar, não deixa eu me expor e já me enfia um instrumento macabro na goela.

Qual a vantagem? 0 tantão de risada que eu dou (descarada ou contida, pois, lembrem-se, preciso ser liberada pra isso). Eita mulher divertida, cheia de novidades e alegria. Leve. Tá na cara que ama o que faz e para quem faz, de tal maneira que ameniza a visita à sala de torturas que é um consultório dentário.

Conheço um monte de profissionais muito bons em seus ofícios, porém nada competentes no trato com as pessoas, seus clientes. São telefonistas treinados, desde que não seja para responder questionamentos fora de um script. São atendentes que lidam bem com agendas complexas, mas por vezes são grosseiros e apressados. São vendedores tarimbados em tendências, mas impacientes ou debochados. São advogados preparados para recitar códigos inteiros, tanto quanto para destilar sarcasmo e piadinhas.

No âmbito médico ainda piora. São cardiologistas capazes de cirurgias complicadíssimas, mas que são secos e frios na hora de oferecer alento ao coração. São endócrinos magros de corpo e gordos de arrogância. (Não estou generalizando. Quem nunca?)

Tem uma multidão desse jeito: que nem percebe que “o modo como se faz” conta igualmente. E que, além de especialista em sua atividade, é recomendável ser amoroso, simpático e agradável.

Por um mundo com fartura de gente assim – que nos entregue diversão e arte em seu pacote de benefícios – sem que, para isso, seja necessário cobrar dobrado!

Voltando ao assunto, minha dentista é duplamente qualificada: habilidosa na restauração dos dentes e expert em arrancar sorrisos, o que, obviamente, comprova a eficácia de seu trabalho.

Kátia Galvão em 50etcetera

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