Dize-me com quem viajas

Quer conhecer de verdade uma pessoa? Viaje com ela! É aí que as máscaras não se sustentam. À primeira vista, todo mundo é maravilhoso – mas vai conviver. Vai ter que dividir o banheiro, decidir, combinar, ceder, dormir e amanhecer junto pra ver. As pessoas acabam se mostrando do jeito que são, querendo ou não.

O amigo chato não gosta de experimentar novidades? Vai fazer igual. O mesquinho só gasta com o necessário? Vai cortar os melhores passeios dizendo que é custo extra. Se for viagem internacional então, dá-lhe converter a moeda pro Real e achar qualquer coisinha um absurdo de caro. É desorganizado? Haja tropeção nos sapatos jogados. E, como você também se revela, surgem as incompatibilidades.

Eu acreditava que viajar servia pra relaxar. Porém às vezes é tenso pacas. Felizmente tem solução, basta – antes de escolher o trajeto – avaliar bem a companhia. Porque, no final das contas, o prazer depende de vários fatores: com quem se está, aonde, fazendo o quê.

Tenho o parceiro ideal, o que é imprescindível. Pode ser pra comer um churros no Manolo ou visitar um dos badalados cassinos do lugar. Podemos estar numa pousadinha rústica ou num resort chique. Em suma, com ele, um itinerário despretensioso fica digno de documentário do Discovery.

Creio que se deve ao fato de que, mesmo ele, me surpreende sempre. Exemplo? Um frio desgraçado, eu toda encapotada e o cara em “manga de camisa” – expressão que descobri o que significava no minuto em que o vi no traje fresquinho.

Por ele, a Avenida Gorlero vira Gurjão, o pobre do Vilaró vira Neruda. Vaca vira ovelha  – somente porque tem mais pelo do que o habitual. Numa naturalidade impressionante.

Se mais de uma criatura toma chimarrão, já inventa uma gíria especial para o povo. Se observa muitos carros antigos, nasce alguma teoria mirabolante sobre o assunto.

Tem gracinhas sobrando, presta atenção em detalhes divertidos. Em contrapartida, tem hora que resmunga, controla meus passos e muda de humor mais do que troca de roupa.

O que ocorre com frequência é que a realidade dificilmente corresponde ao imaginário (eventualmente decepciona, outras emociona).

Vai-se pra rua cedinho pra aproveitar bastante e se depara com uma espécie de cidade fantasma, onde a vida desperta às 14h ou 15h e termina sei lá em que momento, pois nunca conseguimos ficar acordados pra checar esta informação.

Sai-se em busca da famosa feirinha mencionada nos roteiros para turistas e, ao chegar, tem uns dois gatos pingados que se justificam: “somos poucos”.

Tem ainda as roubadas: quando se resolve provar as comidas e bebidas típicas e, além do Clericot, das empanadas e da parillada, toca a procurar um tal de bolinho mágico e apenas no último dia alguém te avisa que foi bom não ter encontrado senão sua trip seria literal.

De cada viagem trago um presente de Deus – o dessa foi participar da homenagem ao pôr do sol na Casa Pueblo. Chorar de emoção descreve!

Regressamos do Uruguai – quase de um ponto a outro do litoral – o que foi mais um daqueles episódios inesquecíveis.

Convicção da volta ao lar: “dize-me com quem viajas que te direi se tornarás a fazê-lo”!

De minha parte, aquele sentimento de gratidão – pela oportunidade, pelo privilégio, pelo companheiro ímpar.

Kátia Galvão em 50etcetera

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