Sobre filhos

Melhor não apostar na unanimidade das mães que me leem porque, convenhamos, para começar uma polêmica, basta falar sobre coisas que a maioria não tem coragem de admitir. É preciso ter cuidado até com a simples menção de que filhos dão um trabalho danado, além das maravilhas que nos falam sobre maternidade.

Em pequenos são passarinhos – esperando para ser alimentados, cuidados e protegidos. A mãe sai e volta para o ninho, com o único propósito de dar-lhes forças para seguir com as próprias *asas (embora, quando *elas cheguem, a gente secretamente deseje apará-las).

E eles crescem. E só complica. Num piscar de anos, da maratona do trabalho físico, corta para uma sucessão de desgastes psicológicos (bem quando você achava que o pior que podia acontecer era esquecer de dar comida ou banho). É que, apesar de terem subtraído essa informação, era pré-requisito do cargo estarmos igualmente aptas a lidar com as questões de ordem emocional – as dos filhos e as nossas.

Filhos. Os fáceis não contam. Nem sei se existem. Vamos aos óbvios. Porque, enquanto está tudo calmo, é uma maravilha. Quero ver lidar com os que te confrontam, os que te contestam, os que fazem escolhas diferentes das suas. Quero ver manter o equilíbrio quando eles adoecem. Quero ver dormir enquanto eles não chegam. Quero ver voltar a falar com o que te fez chorar ontem. Quero ver perdoar aquele que saiu de casa brigado ou o que te disse que te odiava em meio a um acesso de raiva.

Filho tinha que vir com manual em várias línguas, com esquemas explicativos e fale conosco 24 horas. E mãe? Mãe deveria ser chamada para recall constante, coitada, porque sempre tem algum defeito de fabricação que pode levar desde a pequenas falhas até a acidentes graves.

Filhos. Se, desde sempre, qualquer mulher já tinha que ir aprendendo a ser mãe na marra – enquanto também aprendia a ser ela mesma – imagina nos últimos 30 anos, onde a vida mudou na velocidade da luz? Eu, por exemplo, estava com tudo mais ou menos planejado, quando fui pega na covardia. Como é que eu ia imaginar tanta reviravolta? Minha ideia de futuro estava, no máximo, baseada nas invenções dos desenhos dos Jetsons. Aí chega a internet. Pense numa avalanche de novidades extras a serem encaradas.

Por sorte ou competência me dei bem: tenho as melhores filhas do mundo! E a elas agradeço pelo papel mais desafiador e gratificante da minha vida. Reclamações? Só com o tempo, por ter passado tão rápido.

Pelo sim pelo não, vou ficar no aguardo do papel de avó. Estou aqui calculando que deve ser uma beleza, uma tranquilidade – pelo menos é o que se comenta por aí.

Kátia Galvão – 50etcetera

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