Eu plural

Em uma das minhas formações acadêmicas, tive uma professora admirável, com quem mantenho contato até hoje: inteligente, gente fina, super capacitada, alegre e bem humorada, cheia dos canudos, alta executiva de uma grande empresa. Deve ser apenas um pouco mais velha que eu. Cinquentona com certeza.

Estávamos sem nos falar há algum tempo e, pra botar o papo em dia, fomos tomar um chopp com outros colegas de Faculdade. Ela chegou e aparentemente nada havia mudado. Só que depois de umas canas, começamos a falar sobre a gente e o que temos vivido nos últimos tempos. Fiquei besta! Acredita que ela agora se dedica a umas atividades pra lá de bizarras pra quem sempre deteve um alto grau de conhecimento na área financeira? Pois é, faz bolos decorados, trabalha como voluntária em um asilo e é síndica do condomínio dela.

Meu ego totalmente equivocado, impregnado mais do “parecer” do que do “ser”, quase surtou. Como isso? Que talento desperdiçado!

Mas ela foi me mostrando as fotos das obras de arte que eram seus bolos, falando apaixonadamente dos seus velhinhos e me explicando as estratégias que estava implementando na sua administração. Eu sucumbi! Ela estava com um brilho, uma leveza, uma motivação de fazer inveja!

Hoje eu tava lá no meu ateliê/estúdio/puxadinho, fazendo as minhas artes, com a criatividade a mil, quando me lembrei dela. Agora sei. Um líder estará sempre se dedicando mil por cento a seu projeto, não importa o que escolha fazer. O estudioso vai estar, da mesma forma, buscando infinitas informações sobre o objeto de seu interesse, seja a cura de uma doença rara ou a melhor forma de trabalhar com papel. Ninguém abandona suas características do nada. Elas estarão sempre lá, apenas às vezes doidas pra descobrir outras capacidades e se destacar em outras paisagens. Uma coisa não exclui a outra. Não precisa ser isso OU aquilo!

O que importa é aprender, aprender sempre, sem amarras, sem julgamentos. E ser livre pra ter coragem de fazer escolhas diferentes, só pra experimentar – e apegar-se de repente a novas paixões.

Pobre daquele que não se livrou – do seu ego, da sua arrogância, do status que a sociedade cobra, do seu próprio autojulgamento. E perdeu tempo. Sucumbiu. Murchou. Parou com as experimentações.

Eu estou surpresa. Nunca vi tanta gente multitalentosa à minha volta. Ou não enxerguei. Quanto a mim, só agradecimentos, pela descoberta de uma versão mais plural!

Por Kátia Galvão em 50etcetera

17 de junho de 2019

4 comentários

  1. Oi Katita, adorei e me senti muito lisonjeada!
    Eu continuo fazendo meus bolinhos e aprendendo muito, principalmente, qdo não dão certos!! Mas, não aguentei ficar longe da área acadêmica, pois a convivência com as pessoas é maravilhosa, eu sempre aprendo com meus alunos. Já vivi o suficiente para aprender que não podemos deixar a felicidade nos escapar. Se sou feliz fazendo meus bolos e dando aulas, tenho mais é que conciliar os dois. Sem falar em estar sempre com a minha família, brincar duas vezes por semana com meus sobrinhos-netos e “cuidar” do meu Condomínio. E nada disso, mesmo, às vezes, não sendo reconhecido, tira a minha felicidade. Não preciso de status para ser feliz, mas preciso saber que de algum jeito fiz a diferença para alguém e hj vc e fez eu sentir isso e me fez muito feliz!
    Te agradeço muito pelas palavras e que Deus te abençoe sempre! 🙏👏👏😘

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    • Querida mestre, de faculdade e de vida, vc me surpreende sempre! Vc certamente dará conta de mais esta empreitada com muita dedicação e competência. Só tenho a te agradecer por tantos ensinamentos! De fato, seu exemplo faz a diferença na vida das pessoas! Gratidão!

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  2. Kate,
    Exatamente isso. Quando decidi parar de trabalhar fora para me dedicar exclusivamente ao cuidado da minha família fui muito julgada e ouvi…que desperdício, estudou tanto.
    Hoje, muitos anos depois, sinto orgulho de ter seguido com minha decisão e não ter dado ouvidos aos falatórios.
    Minha dedicação, carinho e cuidado ao que escolho fazer são minhas marcas.
    Obrigada por escrever sobre o que todas nós sentimos. Bjs 😘

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  3. Incrível sua sutileza em transcrever suas novas descobertas, minha amiga querida. Que este céu descortinado e imenso seja sempre azul e cheio de possibilidades e descobertas para todas nós, sempre juntas e misturadas. 💞

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