Os sete pecados capitais do professor

Pode parecer que não, mas professor é GENTE. Eu sei que há uma corrente “pseudo” filosófica por aí que coloca a profissão de docente no mesmo âmbito do voluntariado, no patamar dos missionários, na galeria dos candidatos a canonização, mas a coisa não é nada assim não. Desculpa aí, mas nas nossas veias não corre sangue de barata mesmo!

Lá no começo da minha carreira, há quase uns 30 anos, eu até entendia esse discurso do professor ser um profissional que trabalhava no ofício pela “missão” de educar, por exemplo. Afinal, a gente era verdadeiramente prestigiado. Famílias e comunidade nos respeitavam, ouviam nossos conselhos, tanto para a vida escolar dos filhos, quanto para a saúde física, social e emocional de todos. Nos tinham em mais alta conta (afinal era notório que, fosse o que você escolhesse pra “ser quando crescesse”, professores seriam imprescindíveis para sua formação). Falávamos as vozes da experiência e da sabedoria. E dava até gosto aquela sensação de orgulho e dignidade que a docência conferia.

E hoje? Já viveu a situação, em escola pública ou privada, de ter um pai apontando o dedo na sua cara pra dizer que você precisa respeitar o filhinho coitadinho dele? Já foi ameaçado por algum aluno porque apenas pediu pra ele prestar atenção na aula? Já teve uma avaliação rasgada em pedacinhos porque o aluno tirou nota baixa? Já foi chamado de professorzinho de @#$%&*? Já te perguntaram se você sabe “com quem está falando”? Já foi, em resumo, de uma maneira ou de outra, acusado de ser responsável por todo o fracasso do mundo: dos alunos, da família, da escola, do país, e até da EDUCAÇÃO propriamente dita?

Se respondeu a SIM a qualquer uma das perguntas acima, então ok. Você, professor ou professora, é mesmo GENTE. E, sendo assim, também está sujeito a cometer um – ou todos – dos sete pecadinhos capitais a seguir. Felizmente, todos justificadamente perdoáveis.

# IRA

Aquele momento em que, se seus pensamentos viessem com legenda, todo mundo iria saber o que realmente te passava pela cabeça. Aquele bendito minuto em que você está prestes a esquecer que “atenção plena, comunicação não violenta e escuta ativa” são técnicas de harmonização e equilíbrio emocional e não xingamentos descolados.

# ORGULHO

Aquela coisa que você perde toda vez que, mesmo sabendo que o outro está totalmente errado, é obrigado a dizer que sente muito e pedir desculpas. No caso, geralmente “o outro” é um colega de trabalho bem do aproveitador, ou um aluno cujo mãe ameaçou tirar da escola ou fazer uma denúncia maldosa na CRE contra seu diretor.

#INVEJA

É aquele treco que você sente quando percebe que todo esperto, filhinho de papai ou herdeiro de família que você conhece se deu melhor que você na vida. Ele não estudou, não ralou, não se esforçou, não se preocupou, mas “deu sorte”. É quando você começa a repensar a frase “mesmo assim faria tudo de novo”.

#PREGUIÇA

É aquela coisa que não te abandona. Você abre o olho de manhã e lá está ela. Aquilo que acontece quando, na hora do lanche, encosta a cabeça na mesa da sala dos professores e, quando percebe, já está babando em cima do livro. Aquela sensação que te faz chegar em casa se arrastando. Para quem trabalha na área, mais comumente conhecida como cansaço ou estafa mesmo. Porque preguiça é pros fracos!

#AVAREZA

Qualidade dos que não abrem a mão em hipótese nenhuma. Principalmente se for pra vendedor de bugigangas se aproveitar de nosso suado dinheirinho. Professor é pão duro porque, além de ganhar uma miséria, ainda adora presentear seus aluninhos de todas as trezentos e setenta e cinco turmas que ele geralmente tem. Uma hora com prêmios por desempenho, por comportamento, com livros de leitura, com lápis com enfeite. Em outras porque é dia disso, aniversário daquilo. E, em todos os casos, é melhor que seja coisa baratinha mesmo.

#GULA

Essa é fácil de definir. Professor come. Come. Come porque está estressado. Come porque, afinal, ele merece. Come porque tá feliz. Porque tá triste. E também porque em sala de aula tem festinha todo dia. E aí é a desculpa perfeita pra não querer magoar ninguém com uma recusa. Comida e professor, um caso de amor que só termina na dieta (que ele sempre jura que vai começar numa segunda que vem).

#LUXÚRIA

Eu sei. Essa parte teria que, didaticamente, ser destinada aos desejos carnais, confere? Ou, em termos mais amplos, aos excessos, aos desmandos, aos desejos desenfreados. Mas, coitado, jura mesmo que você imagina um típico professor, que se desdobra pra fazer o melhor possível por uma EDUCAÇÃO que praticamente só aparece no contexto da sociedade na boca de político em véspera de eleição, preocupado com isso? Esse professor, que tem que se esforçar tanto, anda é muito desgostoso. Pulsão zero, eu diria. E já que esse texto é meu e eu falo o que quero, vou terminar fazendo um trocadilho: LUXÚRIA, que nada. LUXO mesmo seria se os professores e professoras desses novos tempos estranhos pudessem ter a importância que merecem e o dinheiro que precisam! Aí sim seria o extremo prazer!

Por Kátia Galvão – SOU PROF

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