Onde nasce a culpa?

Parei para refletir sobre isso porque, bem, quando uma pergunta me vem à cabeça, não há quem a tire daí sem eu ir buscar um pouco de sossego pra mim mesma. A resposta pode vir através de uma das minhas técnicas favoritas, tipo: abrindo um livro de cabeceira aleatoriamente para ver se acaba “caindo dos céus”. Ou fazendo o mesmo questionamento a alguém bem próximo, assim meio como quem não quer nada. Ou – obviamente a minha favorita – de madrugada, na invasão dos ideias que costumam só chegar nessa hora.

Fato é que eu já me senti culpada “ene” vezes. Mas, vasculhando a memória aqui, a sensação me veio mais pelo que eu tenha DEIXADO DE FAZER do que, propriamente, pelo que TENHA FEITO. Estranha essa constatação. Mas, de volta ao tema, esse não é o ponto agora.

Culpa. Acho que ela é resultado de duas dores principais: a falta de autoconfiança e a mania de perfeição. No primeiro, a gente questiona tanto a nossa própria capacidade, nossa assertividade, que termina por se julgar inferior, menor. Como se não tivesse competência mesmo. Prato feito pra culpa se alojar, seguida daquele sentimento de “não, não dei conta”. Quando, diferentemente, ela se instala pela obsessão em ser perfeito, sem defeitos, sem máculas, a história acaba desembocando no mesmo lugar: de que poderia ter feito melhor ou de não ter sido bom o suficiente.

Culpa está intimamente ligada à fracasso. E, se insistente, me soa à incapacidade de se auto perdoar, de se absolver por suas próprias mancadas. E, naturalmente, de aprender com os erros cometidos e seguir em frente.

Culpa é solitária. Meio que só diz respeito à gente mesmo. Vem da cobrança interna, do que você se impõe ou espera de si. Não tem a ver com o que você fez ou deixou de fazer a alguém. A isso chamamos remorso, é diferente.  Psicopatas, por exemplo, sentem e aceitam a culpa, mas não conseguem sentir remorso por suas ações e de, consequentemente, se arrepender por elas. Mas também tem a culpa imposta. Aquela de quando a cobrança vem de fora, marcada por um “você não se sente culpado(a)?”, quando você nem tinha se dado conta do dolo ainda.

De onde ela nasce? Acho que não com a gente. Tipo “nasce a pessoa, nasce a culpa”. Não mesmo. Creio que ela vai se alimentando e crescendo com um reforço negativo aqui, uma acusação ali, com alguma crítica provavelmente. Em verdade, acho que ela surge quando você confronta as expectativas da sociedade e da família versus o seu desejo de não decepcionar.  Penso que culpa é produto do meio e de algumas relações mal construídas ao longo da vida.

Prioridade pra gente devia ser vulnerabilidade. Saber-se imperfeito, assim como todo mundo que está a sua volta o é. Prioridade devia ser se perdoar, se acolher, se cuidar, se proteger. Se des-culpar!

A culpa? Vamos começar já um movimento para tirá-la de nosso vocabulário, como tantas outras porcarias instaladas dentro de nós por uma sociedade constituída pelo medo, pela vergonha e pela observância cega à moral e aos costumes. E, antes que eu me esqueça, abaixo a cultura de mais uma modalidade de violência invisível, silenciosa e estrutural! Des-culpa aí!

Por Kátia Galvão

Em 07/12/2020

2 comentários

  1. Estava justamente pensando sobre a minha culpa de não ter sido uma boa professora este ano por não ter me adaptado muito bem à modalidade de ensino remoto quando recebi este email. Foi muito bom ter lido. Me ajudou nas minhas reflexões. Obrigada.

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    • Puxaaaa. Meu coração está repleto de alegria por poder ajudar com minhas palavras! E olha a responsabilidade, vindo de uma professora tão maravilhosa como vc. Mas é isso: nem tudo está a nosso alcance. Algumas coisas realmente fogem de nossa alçada! Ah, pra vc saber e compartilhar… Eu tenho um programa semanal, ás segundas, às 18h, no Instagram @sou.prof com um psicólogo maravilhoso e o último tema foi justamente sobre isso. Dá lá uma olhada se puder. Ficou salvo no IGTV! Bjs carinhosos pra vc, querida! Obrigada pelo comentário!

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